Arnaldo Baptista
Poeta, músico e ícone brasileiro

Arnaldo Dias Baptista nasceu em São Paulo em 06 de julho de 1948.
Seu pai, César Dias Baptista, era jornalista, poeta e cantor lírico. A mãe, Clarisse Leite Dias Baptista, era pianista concertista erudita e foi a primeira mulher no mundo a escrever um concerto para piano e orquestra. Nesta atmosfera foram criados os três filhos do casal: Cláudio, Sérgio e Arnaldo.

De 1955 a 1959 Arnaldo estudou piano clássico, com a mãe como uma de suas professoras. Frequentou cursos de nível universitário de maestro e regência, canto orfeônico e teoria harmônica. De 1961 a 62 fez curso de dança; de 1962 a 63 estudou contrabaixo clássico; de 1963 a 65, violão e inglês; de 66 a 67, alemão. Durante boa parte com os Mutantes (1967 a 1974) dedicou-se ainda ao piano jazz-rock e à dança moderna no badalado Ballet Stagium de São Paulo. De 76 a 79, retomou cursos de piano clássico, estudou esperanto, russo e deu continuidade às aulas de ballet.

Toda esta bagagem seria levada para Os Mutantes, que se formou como tal em 1967, resultado de várias outras formações de bandas originadas nos tempos do colégio. Segundo Manoel Berenbein – produtor da Phillips no final dos anos 60 e quem apresentou o trio para a gravadora – os Mutantes só tiveram seus LPs gravados graças a coragem e impulso do francês Alain Troussat, então presidente da Philips. Uma das verdades da biografia do grupo é que, terminado o contrato dos Mutantes e com a saída de Alain, a Phillips apresentou a porta de saída aos Mutantes. Eles nunca foram grandes vendedores de discos, mas criaram uma legião fiel de fãs pelo país: faziam muitos shows e participavam de programas e comerciais de TV.

A obra dos Mutantes – e a de Arnaldo Baptista pós-Mutantes – é até hoje uma das mais representativas do pop-rock brasileiro. O maestro Rogério Duprat – arranjador de Os Mutantes e quem apresentou o trio aos tropicalistas – comentou ao ser entrevistado para o vídeo-documentário Maldito Popular Brasileiro sobre Arnaldo, de Patrícia Moran (1990): “Os Mutantes foram a coisa mais importante do tropicalismo. E ninguém conseguiu deixar isso claro. Mas eu sei bem disso e que a cabeça disso tudo, a cabeça dos Mutantes era o Arnaldo Baptista. Insisto e resumo, em poucas palavras: o Arnaldo é responsável por quase tudo que aconteceu de 1967 para frente”. Quando perguntado por que havia deixado o grupo em 1973, o baixista Liminha explicou: “Com a saída de Arnaldo, os Mutantes perderam todo o carisma. Ele era brilhante”.

Perto da virada do século, selos internacionais como o Omplatten e Luaka Bop re-editaram obras dos Mutantes e levaram coletâneas para as lojas. A banda, como era de se esperar, atingiram em cheio o mundo pop-rock. Kurt Cobain chegou a trocar bilhetes com Arnaldo Baptista e saiu do Brasil em 1993 com toda a discografia do grupo debaixo do braço. Beck chamou de Mutations seu CD lançado em 1999 repleto de influências tropicalistas. Sean Lennon parou o carro quando colocou o som dos Mutantes no disc-player e acabou contribuindo com parte do trabalho gráfico do CD Tecnicolor em 2000. A lista continua: Stereolab, Torloise, High Llamas... Wondermints.

Um ano depois de deixar Os Mutantes (1973), Arnaldo entrou em estúdio para produzir seu primeiro disco solo, Loki?, uma obrigação contratual que a gravadora teve de cumprir. Arnaldo chamou os ex-Mutantes Dinho (bateria) e Liminha (baixo e vocais) e o arranjador Rogério Duprat para participar do LP. Rita Lee também veio para alguns backing vocals. A produção ficou a cargo de Roberto Menescal. Mas o público mal soube da existência de Loki?, que pouco depois desapareceria do mercado. Quem teve a chance, comprou. Outros tiveram que se contentar em copiar de quem por ventura estava lá na hora certa, olhando na prateleira certa da loja. Loki? é até hoje considerado pelos críticos um dos discos mais geniais da música brasileira.

Toda a obra solo de Arnaldo Dias Baptista está fora de catálogo ou nunca foi gravada em estúdio. Uma galeria de mais de 30 músicas, finas e poderosas jóias musicais, testemunho sonoro da genialidade de Arnaldo. É o caso do aclamado solo Loki?, de 1975. É o caso mesmo de Singin’ Alone, gravado em 1980/81, lançado só em 1982 pelo selo independente Baratos Afins e relançado (em CD) em 1995 pela Virgin. A produção de Arnaldo de 1978 a 1979 com a Patrulha do Espaço (Elo Perdido e Faremos uma Noitada Excelente...), nunca foi lançada em CD.

Giving enough a chance

Arnaldo sempre teve um público ávido por sua música e poesia. Mesmo depois do sério acidente que sofreu em 1982 e o consequente longo período de recuperação, Arnaldo continuou sendo cultuado pelas gerações seguintes, nos bares, nos festivais de música, nos centros acadêmicos, nas regravações de suas músicas por dezenas de grupos e artistas, do mainstream ao underground. Uma das mais recentes cartas de fãs é de uma garota de 13 anos. “É uma coisa de pai para filho mesmo – o pai era fã e passa isso para o filho”, comenta Lucinha Barbosa, companheira de Arnaldo. “Tem este enfoque da mensagem do Arnaldo depois do Loki?. Existe uma tecla em que todos batem quando vêm falar com ele: ‘você mudou a minha vida!’”.

Mesmo durante o tempo em que se recuperava, Arnaldo não parou de produzir. Lucinha Barbosa, sua companheira desde o acidente, levou-o para um belo sítio nos arredores da cidade de Juiz de Fora, estado de Minas Gerais. Rodeado pela natureza, Arnaldo descobriu o desenho e a pintura como terapia ocupacional – pareciam centenas espalhados pela casa quando o entrevistei pela primeira vez em 1989. Escreveu um total de oito livros de ficção científica. Tornou-se vegetariano. Em 1987, lançou o LP Disco Voador, gravado no sítio de forma precária.

Arnaldo recebe, hoje, cerca de 30 emails de fãs por dia, e a maioria tem entre 13 e 22 anos.. “É uma coisa de pai para filho mesmo – o pai era fã e passa isso para o filho”, comenta Lucinha Barbosa, companheira de Arnaldo. “Tem este enfoque da mensagem do Arnaldo depois do Loki?. Existe uma tecla em que todos batem quando vêm falar com ele: ‘você mudou a minha vida!’”.

Mesmo durante o tempo em que se recuperava, Arnaldo não parou de produzir. Lucinha Barbosa, sua companheira desde o acidente, levou-o para um belo sítio nos arredores da cidade de Juiz de Fora, estado de Minas Gerais. Rodeado pela natureza, Arnaldo descobriu o desenho e a pintura como terapia ocupacional – pareciam centenas espalhados pela casa quando o entrevistei pela primeira vez em 1989. Escreveu um total de oito livros de ficção científica. Se tornou vegetariano. Em 1987 lançou o LP Disco Voador, gravado no sítio de forma precária.

Quem conhece Arnaldo sabe que o amor incondicional de Lucinha foi o elemento auspicioso em seu processo de recuperação. Lucinha e Arnaldo se viram pela primeira vez em 1973 na versão brasileira do Woodstock, o Festival de São Lourenço. Lucinha voltou a encontrá-lo em 1977 e passou a ser uma das namoradas. “Era um relacionamento sem compromissos e obrigações”, explica ela.

Arnaldo passou a aparecer novamente em público a partir de 1989, quando foi homenageado na coletânea Sanguinho Novo por doze bandas de peso do rock brasileiro dos anos 80 – incluindo o Sepultura. Participou do último dos três dias de shows de lançamento do LP no Aeroanta, em São Paulo. Em 1990 fez sua primeira Exposição de Desenhos e Pinturas no centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1992 a mesma exposição seguiu para a Galeria da Pizzaria Cristal em São Paulo. Em 1993 fez outra Exposição de Pinturas no Centro Cultural da Universidade Federal de São Carlos. Com a legião de fãs jovens crescendo, começou a pintar camisetas e cartões. No mesmo ano foi convidado especial na comemoração dos onze anos do Circo Voador no Rio de Janeiro, pintando um quadro ao vivo durante a apresentação do músico Celso Blues Boy. Em 1995 regrava um de seus hits, “Balada do Louco”, para ser incluído lançamento em CD de Singin’ Alone pela Virgin.

Em 2000, Arnaldo começou a subir no palco de grandes eventos. No mesmo ano fez uma participação especial ao lado de Sean Lennon no Free Jazz Festival. Em april de 2001 foi convidado para o festival April Pro Rock. Junto de Lobão, tocou clássicos como “Sanguinho Novo”, “Sexy Sua”, “Ando Meio Desligado” e “Senhor Empresário” para uma audiência de mais de 100 mil pessoas. Como descreveu a jornalista Débora Nascimento, “a atmosfera de reverência (a Lobão) não se comparou à reação do público à chegada de Arnaldo Baptista”. Em dezembro, subiu novamente ao palco no show de lançamento na praia de Copacabana do CD Dê uma Chance à Paz, tributo para os 20 anos da morte de John Lennon. Arnaldo participou de duas faixas, com duas versões diferentes para o clássico de Lennon “Give Peace a Chance”. Uma traz a parceria de Arnaldo com Charles Gavin, dos Titãs e Andreas Kisser, do Sepultura. A outra vem com produção de Yuka Honda & Cibo Matto. O lançamento do CD foi vinculado à Campanha Contra a Violência e os royalties do CD doados à organizações não governamentais do Rio voltadas para o combate à violência, como Viva Rio e Sou da Paz.

Mas foi já em 1995 que Arnaldo retomou a música de forma mais sistemática, depois de Lucinha ter conseguido finalmente juntar verba para completar o estúdio no sítio de Juiz de Fora. Compraram primeiro dois amplificadores valvulados Audio Research: “os melhores do mundo”, comentou Arnaldo durante a escolha. Nesta época ele também ganhou um baixo Gibson SG igual ao de Jack Bruce, do Cream, de um amigo-fã, Alexandre Cotta . “Aí incorporamos duas baterias, um piano”, contou Lucinha.

Jack Bruce faz parte da lista melhor dos melhores de Arnaldo Baptista. No famoso exercício: ‘Quem você chamaria para uma banda?’, Arnaldo não titubeia: Jimmy Page, do Led Zeppelin; Nigel Olson, ex-baterista do Elton John, Tony Kaye, tecladista do Yes e Jack Bruce, no baixo.

O CD Let it Bed, o livro Rebelde entre os Rebeldes, a volta dos Mutantes aos palcos, o documentário Loki-Arnaldo Baptista e o Arnaldo artista plástico

O lançamento de Let it Bed em 2004, com produção de John Ulhoa e pré-produção de Rubs Troll, foi um dos mais aclamados pela crítica e público. O álbum recebeu diversos prêmios, como o Prêmio Claro de Música Independente, de 2005, e dezenas de matérias na imprensa, blogs de música e sites de fãs.

Em 2006, em uma tacada de mestre, o espaço londrino Barbican quis fechar sua exposição-evento de três meses sobre a Tropicália reunindo os Mutantes. Milagrosamente conseguiram e durante um ano e meio, os Mutantes – com a participação de Arnaldo Baptista e Zélia Duncan, além de uma banda de jovens talentosos montada por Sérgio Dias – saíram em uma turnê pelo mundo que durou cerca de um ano. Depois disso, Arnaldo e Zélia voltaram para sua atividades normais e a banda hoje segue fazendo shows, tendo à frente Sérgio Dias Baptista.

Em 2008, Arnaldo lançou pela Rocco um livro que escreveu nos anos 80, Rebelde entre os Rebeldes, um romance de ficção científica, que mistura psicoldelia com cosmo, música, espiritismo, ciência, moto, nave espacial, telepatia... delicioso de ler e que tem um apelo fantástico para o público mais jovem. Rebelde entre os Rebeldes recebeu diversas resenhas na imprensa. Como disse Jotabê Medeiros no O Estado de São Paulo: “o resultado (do livro) é essa ficção retrofuturista que acredita no caráter transgressivo e transcendente da música, que parece prima-irmã de ‘Barbarella’ e que se assusta com a violência da era atômica pós-Hiroshima e Nagasaki. Arnaldo é um combatente anti-racionalista desde a mais tenra idade. No seu apego ‘a tudo que foge ao universo visível’ está uma estratégia de revalorização humanística, que é muito bem-vinda.”

Logo depois, e ainda em 2008, o Canal Brasil lança o filme-documentário Loki-Arnaldo Baptista, com direção de Paulo Henrique Fontenelle, primeiro longa produzido pelo Canal Brasil e que vinha sendo gravado desde 2004. O filme circulou pelos principais festivais de cinema, ganhando prêmios em São Paulo, Rio, Cuiabá, Miami, Toronto e Nova York, entre eles o Prêmio ACIE de cinema da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeiro. Foi lançado em DVD em 2009. Recentemente, Loki-Arnaldo Baptista apareceu como finalista em quatro categorias para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2010 da Academia Brasileira de Cinema: melhor longa-metragem documentário, melhor montagem documentário, melhor som e melhor trilha sonora original.

Um lado exposto no documentário é justamente o do Arnaldo Baptista pintor. A elaboração de uma tela aparece no filme entremeada com depoimentos de Tom Zé, Lobão, Liminha, Lucinha Barbosa (mulher de Arnaldo e Produtora Associada) e Sean Lennon (filho do ex-beatle e fã dos Mutantes), entre tantos outros.

Em 2010, com curadoria da galeria Emma Thomas, Arnaldo participa da Feira SP-Arte 2010 com 16 desenhos. Desde o início de sua carreira, Arnaldo mostrou uma capacidade surpreendente de auto-reciclagem. Ele permite facilmente que novos elementos entrem em sua música e arte. Parece que sua missão é apontar um futuro que ainda não existe, mas pode ser sentido.

Sonia Maia
Pesquisa: Lucinha Barbosa e Marcelo Lopes


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